quinta-feira, 22 de abril de 2010

Exército joga sujo com as Forças Armadas, acusa a Marinha

Sucessão de Costa e Silva

Em manifesto, um almirante apontou que a sucessão estava na verdade sendo decidida por um “colégio eleitoral” de 107 generais do Exército.

“As tropas eram mantidas à distância pelo semi-segredo da operação à custa de decisões tomadas em reuniões secretas da cúpula de uma Arma”, dizia o documento assinado pelo almirante Melo Batista.

O manifesto lançado a 2 de outubro de 69 também fez um diagnóstico da situação do país após cinco anos de administração militar. Trecho do documento apontando que havia:

- situação econômico-financeira preocupante, agravada por uma política distorcida, que tornava a União cada vez mais rica e o povo cada vez mais pobre

- a descapitalização da iniciativa privada, com número crescente de falências, concordatas, protestos, transferência de controle acionário de indústrias básicas para grupos estrangeios

- o empobrecimento alarmante da agricultura e do povo a ela ligado

- a amargura nos meios operários, submetidos a um custo de vida muito superior em elevação ao aumento de salários

- o processo de pré-guerra revolucionária que encontrava receptividade no seio da população

- a insatisfação nos meios estudantis, apenas contida no momento pela prisão ou exílio dos líderes

- a eliminação dos quadros políticos e das lideranças populares, não apenas pelo imperativo do processo revolucionário, mas simplesmente para facilitar o controle estadual por parte de determinados grupos

- a desmoralização e marginalização proposital dos políticos, de forma a entregar o governo da nação exclusivamente aos militares.

Marinha Ganha Espaço

O documento do almirante provocou a edição de um ato institucional para sua punição.

O AI 17 de 14 de outubro de 69 permitia transferir para a reserva militares que, embora com serviços prestados, atentassem "contra a coesão das Forças Armadas".

Atingido pela primeira aplicação do AI 17, Melo Batista foi transferido para a reserva pelo período de um ano.

Mas o protesto deu frutos e o vice de Medici na presidência seria o Almirante Augusto Rademacker, representando a Marinha...

A preparação do clima para o AI 5

22 Atentados de
extrema direita
antecedem
o AI 5 em 1968

São Paulo, Rio, Alagoas, Pernambuco e Rio Grande do Sul tiveram alvos no semestre em que o regime fechou o Congresso e ampliou a perseguição política.

Em S. Paulo a 18 de julho atores da peça Roda Viva de Chico Buarque foram espancados e o teatro Galpão depredado pela sigla CCC.

A 2 e 3 de outubro o prédio da Faculdade de Filosofia da USP era destruído a bombas e um estudante morreu a tiro. No dia 5 sequestraram a atriz Norma Benguel e a levaram a um quartel do Exército no Rio de Janeiro.

Lá, bomba dera prejuízo à Associação Brasileira de Imprensa em julho e em outubro à editora Civilização Brasileira.

Em Porto Alegre, mais atores de Roda Viva foram sequestrados em outubro.

A 12 de dezembro a Câmara dos Deputados não dá licença para processar Marcio Moreira Alves por ofensa às Forças Armadas.

No dia seguinte o Conselho de Segurança Nacional baixa o AI 5, fecha o Congresso e aprofunda a repressão.


O clima para o AI 5 foi preparado.
E os estudantes escolhidos
como alvo tático para acirrar
os ânimos e justificar
mais repressão.


O ministro Gama e Silva, autor do texto, explicava que a guerra revolucionária e seus atos de subversão (eram de extrema direita..) cresciam cada vez mais.

Com o texto do AI 5 nas mãos há tempos, Gama e Silva preparou o clima para justificar mais repressão. Os estudantes foram escolhidos como alvo tático. A equipe do CCC inspirada por ele em S. Paulo tinha alunos de Direito da Universidade Mackenzie, radicais de direita da USP e policiais.

Como ministro da Justiça, Gama e Silva notabilizou-se por trazer sempre à mão o rascunho de um elenco de medidas de endurecimento da repressão política, o que acabou vingando em 13 de dezembro de 68 com a edição do Ato Institucional 5, que vigorou até 79.

A 18 de dezembro de 68 o ministro da Fazenda Delfim Neto declarava à imprensa que o AI 5 permitiria "tomar as medidas necessárias no sentido de reduzir o déficit do Tesouro e conter o processo inflacionário".

E Costa e Silva completava no dia seguinte, na Escola Superior de Guerra, que o governo teria com o AI 5 melhores condições para executar seu programa econômico.

Ou seja, mais repressão
era bem vinda e esperada...

Igreja de Libertação

A renovação proposta por João XXIII no Vaticano * coincidiu com a instalação do regime militar no Brasil. A ordem era deixar o rosário um pouco de lado e lutar por justiça social através da Teologia da Libertação.

Foi a resposta da Igreja Católica ao desafio representado pelos pobres, oprimidos, excluídos e marginalizados de toda a América Latina. Essa política foi discutida no Concílio Vaticano II (durou de 62 a 65) e colocada em prática no final da década.

A Teologia da Libertação propõe a conscientização, organização e libertação político-social, econômica e cultural de todos os submetidos a qualquer forma de opressão. Tenta unir o político à reflexão teológica fazendo da fé a dimensão pela qual se filtram as questões sociais.

Depois de se servirem do rosário e das passeatas
inspiradas em procissões católicas para manipular
a opinião pública em favor do golpe,
“nossos militares” tinham um mico nas mãos.

A reação veio violenta. A 27 de maio de 69 foi encontrado estraçalhado num matagal o corpo do padre Henrique, jovem discípulo do Arcebispo de Olinda e Recife D. Hélder Câmara, inimigo intocável e seguidor da Teologia da Libertação.

O próximo será Dom Adriano Hipólito, bispo de Nova Iguaçu, acusado de comunista por acolher perseguidos políticos: sequestrado, torturado e deixado nu pintado de vermelho no meio da rua a 22 de setembro de 76.

"Nossos militares" descontentes com a nova orientação da Igreja Católica lançavam bombas e pichavam a catedral de Nova Iguaçu (20/12/79).

A 4 de julho de 80 foi a vez de S. Paulo conhecer a fúria contra a bandeira dos direitos humanos empunhada pelos católicos. Nesse dia seria sequestrado e torturado o dr. Dalmo Dallari que faria uma saudação ao Papa João Paulo II em visita ao Brasil.

Vamos mostrar porque o regime ficou tão violento com a Igreja Católica brasileira.

A Teologia da Libertação analisa a divisão do poder econômico, político, ideológico e militar num mundo que exclui grande parte de seus habitantes.

Acusa de perverso um sistema que se sustenta pela degradação da qualidade de vida, opondo-se à lei fundamental do cristianismo: o amor e a solidariedade.

Crendo que o desafio moderno é formar uma consciência mundial, a teologia da libertação faz valer os direitos civis de favelados, desempregados, moradores da periferia, negros, operários, sem-terra, presos, índios, mulheres e organizações sindicais ou comunitárias.

Ou seja, era tudo o que os nossos generais da banda não queriam para o Brasil e para os brasileiros.

* João XXIII convocou o Concílio, morreu pouco antes da primeira sessão e foi sucedido por Paulo VI.

D. Helder Câmara, a Luz da Verdade

Fundou a CNBB e foi seu secretário-geral por 12 anos.

Era o maior inimigo da administração militar.

Proibido de falar aqui, fazia conferências no exterior denunciando a prática de tortura a presos políticos e as carências da população.

Sua coragem o tornou símbolo de resistência e em 1972 foi indicado ao Nobel da Paz.

Teoria do Terror

No gráfico de registro de atentados de extrema direita nota-se atividade regular e intensa no período 79/80, distribuída praticamente mês a mês, frequência nunca antes registrada

O descontentamento desafiador da ditadura clandestina com a administração Figueiredo e sua Lei da Anistia salta aos olhos.

Após oito meses de atentados quase mensais, os radicais das Forças Armadas decidiram também afrontar o Papa João Paulo II em visita ao Brasil.

Sequestraram e torturaram o dr. Dalmo Dallari (4/7/80), expoente católico de defesa dos direitos humanos, que faria a saudação ao pontífice na cerimônia pública de S. Paulo.

E marcaram para 27 de agosto, no Rio de Janeiro, o protesto mais violento, com carta bomba para a OAB. O corpo da secretaria Lida Monteiro ficou despedaçado.

O próximo protesto seria no centro de convenções Riocentro. O desfecho trágico daquele atentado calou e convenceu os descontentes a aderirem ao que observadores chamam de Teoria do Autoritarismo. Os atentados cessaram de vez no Brasil.

A Teoria do Autoritarismo propõe a saída honrosa de cena e a transmissão do poder aos civis "sob condições".

A primeira delas: negar que houve ditadura. Os excessos seriam esquecidos e se daria a conciliação das Forças Armadas com o povo brasileiro.

Postos chave na máquina do "estado de direito" foram prometidos aos "colegas das bombas", assim como aos seus aliados civis como garantia.

Antes mesmo da nova Constituição, como parte do plano, o Congresso militar já havia removido o chamado "entulho autoritário", aprovando um pacote de medidas que revogava disposições que limitavam os direitos políticos.

Pelo plano, o presidente civil seria indicado pelo colégio eleitoral dos militares e ainda não pelo voto popular - o que de fato ocorreu com a escolha de Tancredo Neves-José Sarney.


Assim legitimado, o regime se caracterizava não como uma ditadura militar mas como um "governo autoritário".

A volta da inflação, o caos no setor público, a dívida externa gigante (cresceu quatro vezes de 74 a 77), a escandalosa concentração da renda nacional e as graves violações aos direitos humanos durante a perseguição política (426 desaparecidos, mais de dois mil torturados...) seriam deixados de lado em troca da liberdade!

E a memória brasileira está atrelada ao novo oficialismo que reconta seletivamente a nossa história contemporânea.

E a ditadura terrorista tem até hoje o poder de determinar aos vivos a memória permitida.

Desfile Militar

Foram mais de duas décadas de desfile militar e os generais da banda somaram cinco – um cearense, três gaúchos e um carioca.

Cinco ditadores e estão todos mortos.

Nenhum despertava aquela simpatia, aquele carinho do povo nas ruas, como apelidos jocosos ou piadinhas. Todos sabiam que isso dava cadeia, quem era contra até desaparecia - dizia-se nas ruas.

Mas à boca pequena se comentava que o cearense era apaixonado por uma escritora comunista, um gaúcho era viciado em corrida de cavalo e carteado (a mulher dele se vestia com o Dener), outro gostava de futebol e violência, o terceiro era protestante, e só deixava a mulher cortar suas unhas. Finalmente o carioca preferia o cheiro de cavalo ao do povo, não cansando de pedir para esquecê-lo...


Cinco personalidades selecionadas a dedo pelo "Conselho de Segurança Nacional" para governar o Brasil. A escolha de cada um era uma comédia. A imprensa cobria todo o processo - era o notíciário na falta de eleições populares.

Os articulistas políticos dos grandes jornais competiam para ver quem estava melhor informado nos bastidores do poder. Castelinho no JB e Carlos Chagas no Estadão não deixavam de dar palpites sobre "os mais cotados".

Era eletrizante. As biografias de todos os candidatos era transcrita do Almanaque do Exército.

Esse era o noticário político. Passados quase 50 anos da instalação do regime fica a pergunta: por que a coisa durou tanto; por que o povo não sabe do legado deixado - um país à beira da falência, com mais problemas do que quando foi tomado pelos generais da banda? Por que essa aversão pelo voto popular da democracia?

Uma vez só, em 60 anos (1930/90), o voto popular escolheu um presidente civil que passou o cargo a outro (Juscelino/Janio) ...

Só há um jeito de mudar essa situação - a participação ativa do povo no seu próprio processo histórico, com o conhecimento do passado para tirar lições dele.

Diretas Já

Diretas Já era o nome do movimento que exigia eleição direta para presidente durante o processo de abertura política nos anos 80.

A constituição militar previa a escolha indireta do presidente que sucederia Figueiredo mas a opinião pública queria reformá-la. Para isso precisava-se de 2/3 dos votos no Congresso.

Em 84 o deputado Dante de Oliveira apresentou a emenda das diretas com manifestações populares de apoio em vários estados exigindo a aprovação.

O Congresso da ditadura rejeitou a emenda e a eleição foi indireta, ainda pelo "colégio eleitoral militar".

Indiretas Já seria o nome apropriado para o movimento conduzido por Ulisses Guimarães e que mobilizou a sociedade.

É que os pensadores da Escola Superior de Guerra haviam elaborado a Teoria do Autoritarismo e tudo estava em marcha.

A Teoria do Autoritarismo previa a saída honrosa dos militares de cena e a transmissão do poder aos civis "sob condições".

A primeira delas: negar que houve ditadura. Os excessos seriam esquecidos e se daria a conciliação das Forças Armadas com o povo brasileiro.

Antes mesmo da nova Constituição livre e soberana de 88, como parte do plano, o Congresso já havia removido o chamado "entulho autoritário", aprovando um pacote de medidas que revogava disposições que limitavam os direitos políticos.

Pela Teoria do Autoritarismo, o presidente civil seria indicado pelo colégio eleitoral dos militares e ainda não pelo voto popular - o que de fato ocorreu com a escolha de Tancredo Neves-José Sarney.

Assim legitimado, o regime se caracterizava não como uma ditadura militar mas como um "governo autoritário".